quinta-feira, 5 de abril de 2007

TECNOLOGIA NA PONTA DOS DEDOS?

Em meados dos anos oitenta, a discussão sobre a importância da capacitação tecnológica para o desenvolvimento nacional atingiu o grande público, através dos meios de comunicação. Anúncio maciçamente veiculado por uma grande multinacional do setor de informática dizia o seguinte: "a tecnologia está na ponta dos dedos" Com isso, tentava simbolizar - diziam alguns- que era perda de tempo o país se envolver com projetos de desenvolvimento de tecnologia própria. A tecnologia ficara tão simples e popular que qualquer um poderia usar um microcomputador (dedos ágeis seriam suficientes).Outros mais "técnicos" faziam leitura ligeiramente elaborada, afirmando que a popularização da tecnologia alcançaria a todos. Portanto, o grande esforço seria o de aprender a usar. Alguns outros observavam esses anúncios a partir do conceito de autonomia tecnológica ou seja: capacidade de concepção, projeto, desenvolvimento, fabricação e uso como etapas essenciais a um projeto de país. E não gostavam nem um pouco da mensagem.
No atual momento, quando volta -se a falar em planejar o futuro, pensar o país também no longo prazo, o conceito de desenvolvimento torna a ser considerado. Visto que não se trata mais de apenas planejar a estagnação, a recessão, a questão tecnológica conquista espaço nas esferas de políticas públicas.
Observado com os olhos de hoje, o anúncio daquela multinacional estaria obsoleto.
Afinal, uma das mais importantes feiras de tecnologia européia ( Feira de Hannover) acaba de premiar uma empresa austríaca. Motivo? Desenvolveu um sistema capaz de permitir que pessoas com limitações de movimento comuniquem-se, mediante emprego de ondas cerebrais. Valendo-se de eletrodos implantados no cérebro, é possível a essas pessoas controlar o uso de um cursor de um microcomputador sem mover um dedo sequer.
Mas o dilema enunciado na campanha publicitária daquela multinacional permanece atualíssimo. A tecnologia estaria na ponta dos dedos (ou no cérebro, ou, quem sabe, no coração)? Carecemos de adestramento para usar de modo correto os produtos da indústria do conhecimento? Ou precisamos desenvolver a capacidade para também conceber, projetar, produzir, utilizar e comercializar esses produtos? Essas e outras soluções?
Estudos recentes, empregando distintas metodologias, vêm apontando as dificuldades enfrentadas, no Brasil, pelas atividades industriais que se caracterizam pelo emprego intensivo de tecnologia. Levando-se em conta os segmentos que se convencionou denominar de alta intensidade tecnológica, observa-se que apresentam déficit nas suas relações comerciais com o exterior. Nesse caso se encontram, por exemplo, os setores da indústria farmacêutica, de telecomunicações, informática, componentes eletrônicos, instrumentos médico – hospitalares de precisão. Nessa categoria de produtos (alta intensidade), apenas a indústria aeronáutica é superavitária. Resultado direto do projeto ITA que está na origem da EMBRAER.Outros setores que integram o segmento de média – alta intensidade tecnológica também apresentaram resultados deficitários no ano de 2006. A despeito da importante indústria automobilística, que faz parte esse segmento, apresentar quase 9 bilhões de dólares de exportação.
Já os segmentos de baixa intensidade tecnológica apresentam saldos comerciais positivos, embora não alcancem magnitude suficiente para compensar as perdas nas transações com o exterior sofridas pelo segmento de alta intensidade tecnológica. Vale dizer, o superávit comercial alcançado pelo Brasil em 2006 decorreu principalmente dos resultados obtidos com os saldos comerciais dos setores agropecuário e extração mineral, com a colaboração do segmento de transformação industrial de baixa intensidade tecnológica.
É fato reconhecido, aqui e lá fora, que o comércio intrafirma (entre filiais das multinacionais) praticamente determina o fluxo de comércio no segmento de alta intensidade tecnológica.
O retrato do panorama industrial brasileiro recente mostra que o segmento de baixa intensidade tecnológica emprega grande quantidade de trabalhadores. Em seguida vem o segmento imediatamente superior em (média – baixa) intensidade tecnológica. Contudo, os resultados obtidos nas transações com o exterior são insuficientes para compensar as perdas do segmento de alta intensidade tecnológica. Daí o déficit comercial do conjunto da indústria de transformação. No setor de serviços, ao se considerar seu desempenho a partir dos dados da publicação Balanço de Pagamentos Tecnológico (publicado pela FAPESP), a situação não é muito diferente daquela aqui antes relatada.
Essas são questões relevantes no exame de estratégias de desenvolvimento de longo prazo: qual modelo de desenvolvimento perseguir. O projeto nacional de desenvolvimento.
O Brasil formou mais de 16 mil doutores somente em 2006. Segundo os números disponíveis e mantido esse ritmo de titulação, parece muito razoável estimar que o país poderá contar cerca de cem mil doutores, ao final de 2010, em todas as áreas reunidas. Se para adestrar apenas para o uso da tecnologia, pode parecer muito. Contudo se a destinação for projetar, desenvolver, produzir, empregar todo o potencial da inteligência criativa e colocá-lo a serviço das necessidades do país, será um bom recomeço.Tecnologia na ponta dos dedos...Mas, espero sinceramente, também na inteligência e no coração do brasileiro.

Arthur Pereira Nunes
Publicado no Caderno de Educação da Folha Dirigida de 3/4/2007